[00:10.51]Tenho tantas recordações como[00:11.83]Folhas tremendo nos ramos,[00:13.25]Canas murmurando à beira-rio,[00:14.93]Aves cantando no céu azul,[00:16.89]Frémito, murmúrios, canção:[00:18.29]Tantas! E mais disformes que sonhos.[00:19.99]Mais ainda: De todas as esferas celestes;[00:21.80]Como a onda, que ao quebrar,[00:24.47]Invade a imensidão da praia, sem[00:26.54]Nunca porém, um grão de areia expulsar.[00:28.18]Em atropelo, ouço-as segredar,[00:29.81]Ora agrestes, ora ternas, duras ou sinceras;[00:31.96]De tanta fartura, ainda dou em louco,[00:33.78]Esqueço quem sou e torno-me um outro.[00:35.33]As que são tristes, mais tristes me soam;[00:37.47]Agora que sei outro recurso não ter,[00:39.43]Que ficar de novo encalhado[00:41.04]Nas margens do eterno sofrer.[00:42.50]Também as felizes, se tornam mais tristes,[00:44.75]Pois para sempre se esvaneceram:[00:46.42]Beijos, luxos, palavras do passado,[00:48.33]São como frutos que em mim morreram.[00:49.95]Nada mais tenho que recordaçøes,[01:54.67]A minha vida já há muito se foi.[01:57.24]Como pode um morto cantar ainda?[01:59.39]Em mim já nenhum canto tem vida.[02:01.35]Nas margens dos grandes mares,[02:02.82]Na funda escuridão dos bosques,[02:04.91]Ouço ainda o grande rumor despertar[02:06.91]E nenhuma voz que o faça libertar.